Antropologia

Tuesday, January 11, 2005

Smith Adam, A riqueza das Nações

Cap IV-A origem e utilidade da moeda

Num período posterior ao desenvolvimento social responsável pela divisão do trabalho, verifica-se que na sociedade é imprescindível a troca, pelo menos aos trabalhadores que incorporam esta estratégia de produção. Uma vez que um individuo faz parte de um trabalho especializado numa cadeia de produção de um produto especifico, deixa de poder ser o trabalhador polivalente que encabeça todos os processos de produção e criação de uma vasta gama de bens, os quais em variedade mínima supriram as suas necessidades e as da sua família. A divisão do trabalho tendo como vantagem os aumentos na produção, incrementou assim a necessidade da troca de bens e a sociedade torna-se mercantil. Estas trocas são essencialmente possíveis porque, devido à divisão do trabalho, todos os homens têm em excesso o produto do seu trabalho especializado mas têm em défice ou total escassez outros bens de que necessitam que são por sua vez produzidos pela especialização de outros homens. Acontece no entanto que os serviços que uns homens podem prestar aos outros são em grande parte limitados uma vez que as trocas de bens nem sempre eram possíveis ou justas devido aos diferentes valores em trabalho que determinada mercadoria possuía bem como ás diferentes quantidades inerentes à essência de determinados bens, que podiam ser indivisíveis. A termo de exemplo, um homem que deseje obter um punhado de sal e só possua uma vaca para dar em troca, terá de trocar todo o valor da vaca pela quantidade correspondente em sal. Outro tipo de problema derivado da troca directa em géneros é o das necessidades, ou seja, se um homem necessita de um determinado bem que outro homem possui em excesso para troca, e não possui em excesso nada em que o outro possa ter interesse, não será possível ao primeiro obter o que necessita. Havia no entanto homens avisados que traziam consigo os mais diversos bens que trocavam pelo seu bem inicial, isto para poderem saldar qualquer troca com o produto que o outro necessitasse, aumentando dessa forma as suas possibilidades de obtenção imediata de bens. Nas primeiras sociedades sabe-se que o valor do gado era o instrumento de troca corrente daí que posteriormente o valor de determinados produtos tenha sido calculado com base no número de cabeças de gado por que haviam sido trocadas. No entanto muitos outros bens foram utilizados pelo homem como bem de troca por excelência tal como o sal, o açúcar ou o tabaco. Acontece que como passar do tempo se verificou uma preferência generalizada por bens não perecíveis onde o metal acabou por ser o eleito devido ás suas particularidades nomeadamente a possibilidade de divisão e de fusão que permitia a sua utilização para múltiplas funções. O metal era ao contrário de uma vaca divisível para ser trocado por diversas porções de vários materiais podendo ser cortado na quantidade certa para a troca. Os metais preferidos pelos homens foram o ferro, o cobre, o ouro e a prata variando a sua importância consoante a nação. No início estes metais não tinham qualquer marca ou cunho e constituíam o dinheiro na sua forma mais primitiva, o que acarretava problemas a nível da pesagem e da pureza do material. De cada vez que era efectuada uma troca era necessária a pesagem do metal o que constituía um incómodo. No que respeita à qualidade do material esta trazia ainda mais incertezas e desconfianças. A solução encontrada face a estes problemas foi a afixação de uma marca nacional, primeiro para certificar da qualidade e depois para certificar a quantidade do mesmo. A este processo chamou-se a cunhagem da moeda, arte que foi sendo sucessivamente aperfeiçoada até cobrir todos os lados da moeda para que não pudessem haver cortes no material.
Assim cada nação passou a cunhar a sua moeda. Calcula-se que o nome Xelim se remetesse na sua origem à designação de um peso. Um xelim parece ter tido sempre uma relação com o penny-peso e com a libra embora a relação entre estas duas se tenha ao longo da história mantido mais constante. Desde que apareceu o dinheiro cunhado e valorizado dentro de cada nação apareceram também os câmbios de preços de moedas. Ao longo da história tem-se verificado a manutenção do valor das moedas embora a quantidade de metal valioso original tenha sido em grande parte reduzida. Com estas operações de redução foi possível aos príncipes e estados conseguirem pagar “aparentemente” uma despesa com quantidades de prata interiores o que se resume a uma operação favorável para o devedor e muitas vezes ruinosa para o credor chegando a originar falências estrondosas e fortunas misteriosas.
Foi desta forma que a moeda se tornou o instrumento universal de trocas em todas as nações ditas civilizadas.


O aparecimento da moeda permitiu o desenvolvimento da sociedade mercantil no sentido em que permitiu não só a apropriação privada e a acumulação de capital, ao contrário do que acontecia nas sociedades caçadoras nas quais não havia nenhuma destas noções. A moeda é como se contacta facilmente a chave para o desenvolvimento das sociedades ocidentais pois permitiu o comércio externo e a acumulação de riqueza, riqueza esta que viria mais tarde a ser a chave para a industrialização. É facilmente visível que o progresso mais significativo se verificou após a consolidação no sistema económico destas três características: a moeda, a apropriação privada e a acumulação de capital. A essencial necessidade verifica-se sempre que muma sociedade simples o mercado se começa a diversificar. Isto acaba por acontecer mais cedo ou mais tarde em todas as sociedades, uma vez que nenhuma sociedade no mundo existe isolada. Desta forma a diversificação dos materiais e a consequente dificuldade nas coorespondencias entre todos os productos a ser trocados parece ter sido uma das principais razões que potenciaram o aparecimento da moeda, sendo esta, neste periodo embrionario o bem mais comum e necessario acabando este por ser formado num bem de troca e coorespondencia de valor universal entre todos os restantes bens. É no fundo este o carácter essencial da moeda que pode assumir as mais diversas formas, tais como o vinho, o sal, o gado, o metal ou bens ornamentais. Seria no entanto ingénuo acreditar que a passagem de estes vários bens de troca para a moeda metal, ou moeda papel se processou de forma casual. O que na realidade sucedeu nas diversas sociedades mercantis é que, sendo a moeda ela própria uma mercadoria, se gerou um enorme problema económico uma vez que esta moeda possuía dois tipos de valor; o valor de troca e o valor de utilidade. Desta forma, o valor utilitário estaria constantemente a alterar-se consoante o seu nível de escassez ou abundância o que despoletava importantes transtornos económicos. A solução encontrada para resolver o problema foi em todas as sociedades a de despojar a moeda de todo e qualquer valor utilitário conservando apenas na moeda o seu valor de equivalente geral entre mercadorias.

Smith Adam, A riqueza das Nações, fundação Calouste Gulbenkian, 1993.

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