The Kalela dance - resumo e análise
Apresentação
A obra em análise trata-se de um ensaio monográfico realizado a partir de um trabalho de campo levado a cabo por J. Clyde Mitchell, professor de estudos africanos, no ano de 1951. O estudo foi efectuado na Rodésia do Norte, mais especificamente, em Copperbelt, cidade pertencente à actual Zâmbia. O estudo debruça-se sobre um determinado estilo de dança chamado Kalela, realizada por pessoas que contrariamente à sua tradição mais localizada residiam então, devido à colonização inglesa, num meio urbano.
Vamos proceder a uma breve análise da monografia, desenvolvendo o nosso trabalho ao longo de três pontos, respectivamente: a) o contexto espácio/temporal envolvente do trabalho de campo; b) explicitação do objecto central do estudo (a dança Kalela) e sua caracterização; c) apresentação do método utilizado, articulada com um enquadramento nas linhas teóricas subjacentes ao texto e inserindo-o na estrutura da obra.
CONTEXTO HISTÓRICO
Colonização e administração britânica
· Em 1888, Cecil Rhodes obtém dos administradores locais a concessão dos direitos sobre o minério.
· Mais tarde, nesse ano, a área que se veio a tornar no Norte e no Sul da Rodésia foi proclamada sobre a influência britânica.
· A British South África Company estabeleceu-se pela lei em 1889, e a colonização de Salisbury (que é agora a capital Harare) ficou estabelecida em 1890.
· Em 1895, o território adquiriu formalmente o nome de Rodésia sob a delegação de Cecil Rhodes, administrador da British South África Company.
· Com a desintegração da companhia em 1923, foi dado aos colonizadores brancos da Rodésia do Sul a opção de se incorporarem na União da África do Sul ou se tornarem numa identidade colonial do império britânico.
· Os colonizadores rejeitaram a incorporação, passando dessa forma a fazer parte do Reino Unido.
· Até 1980, a Rodésia foi uma colónia que se auto-administrou, tendo a sua própria legislação, funcionários públicos, forças armadas e policia. No entanto, apesar de não ser directamente administrada de Londres, o Reino Unido deteve sempre o direito de intervir nos assuntos da sua colónia, particularmente no que dizia respeito aos africanos.
· Depois de 1923, os imigrantes europeus concentraram-se em desenvolver os ricos recursos que a Rodésia tem em minerais e a sua aptidão para a agricultura. Os colonizadores exigiram assim, em 1923, a posse de mais terras e a divisão de algumas parcelas destinadas nomeadamente aos europeus.
· Em Setembro de 1953, a Rodésia do Sul unia-se numa multiplicidade racial. A Federação Africana Central juntamente com os britânicos procuravam apoiar a Rodésia do Norte e Nyasaland num esforço para desenvolver os seus recursos e o seu mercado.
· No entanto, ao aparato económico da Federação, opunha-se a população africana que receava não ser capaz de manter a sua auto-administração visto a estrutura federal ser dominada por brancos da Rodésia do Sul.
· A Federação foi dissolvida nos finais de 1963 depois de muitas crises e desordens. Assim a Rodésia do Norte e Nyasaland tornaram-se os independentes estados da Zâmbia e de Malawi em 1964.
OBJECTO DE ESTUDO
A Dança Kalela
A dança da Kalela é a dança mais conhecida e praticada na Rodésia do Norte. Tem um carácter verdadeiramente particular, pois embora seja considerada uma dança de carácter tribal devido à sua constituição e intuito, em pouco se assemelha às danças tribais mais comuns. O estudo de Mitchell durante o seu trabalho de campo incidiu sobre uma só equipa de dança Kalela: a tribo Bisa, na cidade de Copperbelt.
Existem diferentes papéis numa equipa de dança, tais como:
- O rei: o administrador, organizador e tesoureiro da equipa, foi eleito pela equipa. Ele está vestido em contraste com os outros e não participa na dança.
- O líder da dança: escreve a letra das canções e faz a coreografia.
- O doutor: vestido com roupas brancas como os representantes da cruz vermelha.
- A enfermeira: a única mulher na equipa, vestida com roupas brancas e anda em volta com um espelho e um lenço onde os intervenientes podem ver se estão limpos e bem apresentados. (Actualmente existem tantas mulheres quanto homens na dança Kalela)
- Os dançarinos e os percursionistas.
O grupo estudado era assim constituído por 19 homens jovens todos com menos de trinta anos sendo na sua maioria solteiros ou com a mulher fora da cidade, com excepção do Rei, que era mais velho e casado (a única mulher que participava nesta cerimónia era sua esposa). Os homens dançavam em torno de três tocadores de tambores estes também apresentando já uma forma relativamente mais ocidental tendo em conta que os tambores originais eram feitos de troncos de arvore e que são hoje constituídos por velhos bidões cobertos de pele de vaca. Enquanto andam em torno dos tambores centrais os homens cantam alternadamente canções.
Neste tipo de dança urbana os membros do grupo usam uma “roupa sofisticada”, tipicamente ocidental, de um estilo europeu clássico simbolicamente correspondendo a altos cargos sociais: os conhecidos colarinhos brancos. A limpeza era também um factor importante: os intervenientes tinham de estar muito bem apresentados e limpos.
A popularidade da dança Kalela deve-se também às canções, atractivas para o resto da população, já que a língua utilizada é uma forma de Bemba, a língua mais usada em Copperbelt, compreendida assim por todos os espectadores. Por outro lado, o conteúdo das letras também tem bastante relevo, pois espelha a diversidade étnica nas situações urbanas, a unidade da dança e o orgulho tribal como é visível através das referências que eles fazem às diferentes tribos e pela ênfase atribuída às qualidades da tribo Bisa.
O autor encontra nesta dança um paradoxo que consiste no facto de, por um lado, a dança ser uma dança tribal em que as diferenças tribais são enfatizadas, por outro lado, a língua e o idioma das canções, bem como a roupa se referirem a uma existência urbana que tende a atenuar essas diferenças tribais.
O MÉTODO
No capítulo introdutório, o autor caracteriza a sua análise do fenómeno da dança Kalela como um meio utilizado para pesquisar o tribalismo e outros tipos de relações sociais existentes entre a população da Rodésia do Norte.
Apresenta o método utilizado por Gluckman, na obra Analysis of a Social Situation in Modern Zululand, afirmando pretender seguir as mesmas linhas no desenvolvimento do seu estudo. O método referido é o método de análise situacional, inserido nas linhas teóricas da escola de Manchester.
As concepções teóricas e estudos da Escola Antropológica de Manchester e mais especificamente do Instituto Rhodes-Livingstone debruçavam-se especialmente a temáticas actuais e localizadas tais como dilemas entre identidades rural e urbana, o urbanismo e seus impactos; estudavam problemas sociais nas colónias inglesas da África central, principalmente durante a década de 1950. Estes estudos foram motivados pelo colonialismo, pela crescente industrialização nesta área e consequentes migrações para os centros urbanos, causa de diversos processos de mudança social.
O método de enfoque situacional, pode ser sintetizado como uma análise antropológica centrada na recolha de observações de acções sociais realizadas pelos actores numa esfera social obtendo conclusões sobre o próprio sistema social, sendo o objectivo, no fundo, compreender como é que o conjunto social funciona através das suas interligações institucionais e estruturais. Compreender como é que o sistema funciona compreendendo o papel dos agentes sociais que constituem esse funcionamento. Consiste, então, em isolar os elementos significativos de determinado fenómeno e analisar, por extensão, o seu contexto social. Ao regressar ao fenómeno de partida, é possível formular um ensaio interpretativo sobre este.
Seguindo esta metodologia o autor propõe-se primeiro a fazer a descrição da cerimónia da dança Kalela, isolando todos os elementos importantes na mesma e reportando esses mesmos elementos para a sociedade a fim de compreender o seu significado na cerimónia: Tomando a dança Kalela como ponto de partida, analisa o significado atribuído pelos actores sociais ao fenómeno (encarando-o como reflexo da estrutura social, nomeadamente o factor do “european way of life” como agente de estratificação social) com o objectivo final de proceder à interpretação do fenómeno, contextualizando-o num meio urbano.
Mas este método não foi o único utilizado por Mitchell. Esta monografia reflecte a utilização de uma metodologia pluridisciplinar, assente em dados não só qualitativos (como os provenientes do método situacionista). Apoiou-se também em dados quantitativos, utilizando técnicas de pesquisa provenientes da sociologia e da psicologia social, tais como formulários e inquéritos extensivos, de modo a complementar o seu estudo. Também se baseou no método de documentação estatística por documentação concreta que nos foi pela primeira vez apresentado por Malinowsky na sua obra “os Argonautas do pacífico Oeste”, onde esta etapa metodológica era parte englobante e necessária do método etnográfico. Neste sentido são-nos apresentados alguns dos elementos da sua observação e recolha sob a forma de tabelas que quando interpretadas e conciliadas com uma análise mais aprofundada sobre a realidade concreta culminam num todo altamente rico devido essencialmente à sua constituição bimodal compreendendo elementos essencialmente quantitativos com elementos qualitativos.
Para um conhecimento mais aprofundado da dança, utiliza informantes (dos quais não adianta muitas informações) que o esclarecem quanto à origem histórica da dança. Apoia-se também em recursos a materiais históricos. É notório um conhecimento da língua e a sua importância reconhecida na etnografia: o autor procede à tradução de algumas das músicas, mantendo sempre a consciência de que a tradução nunca será absoluta, o que reflecte grande preocupação quanto ao relativismo de conceitos.
Todo o estudo partiu de um grupo restrito de população: o autor observou e conduziu o seu estudo a partir de uma das equipas da dança Kalela, a equipa Bisa, formada quase exclusivamente por membros desta tribo. Considerou este grupo como representativo dos outros grupos de dança.
Interpretação dos dados
O urbanismo
Devido ao aparecimento do urbanismo os vários membros das diversas tribos, viram-se obrigados devido a uma migração para o centro comum, a conviver lado a lado com homens que dantes eram tidos como rivais. Neste contexto urbanita notamos um reformular das próprias relações sociais para as quais a noção de individualismo veio a contribuir para uma reestruturação da relação tribal tradicional o que leva a crer que inevitavelmente, ao longo dos anos por tanto terem de ser obrigados a enfrentar, comunicar e mesmo cooperar com o inimigo ancestral estas rivalidades étnicas acabem por se esbater. Exemplos disso são dois casos descritos pelo autor: um casal que se conheceu e casou em Coperbelt veio a saber mais tarde quando retornou ao meio tradicional que haveria cometido incesto tribal. Por aqui verificamos no meio urbano um esbater das normas e preceitos mas tradicionais e comunitários. O outro caso tratou-se de um funeral que contrariamente ao que mandava a tradição foi financiado não pela tribo da senhora que morreu tendo na verdade sido pago por uma tribo amiga da do seu marido. As adaptações do tradicional ao urbano são mais que evidentes.
Novas relações, novos comportamentos
Facilmente constatamos na obra as transformações do modo de vida rural e de que as relações dos indivíduos a nível domestico foram diminuídas em detrimento de uma nova esfera de relações que na cidade se prendem mais com a solidariedade étnica. Agora por exemplo a figura do grande chefe tribal que no meio tradicional detinha o poder mais ou menos supremo sobre o clã fica reduzida a pequenas funções como a resolução de pequenos conflitos inter-tribais e normas tribais. No meio urbano os verdadeiros papéis de prestígio e estatuto hierárquico elevado pertencem a homens europeus. Verificam-se também transformações nas manifestações culturais tradicionais como a musica, a dança, a família, a vida doméstica, a vizinhança e a própria relação com a etnicidade em relação ao que as pessoas possuíam antes de virem para a cidade. É de salientar que nenhuma forma ou manifestação cultural tradicional entra pura em Copperbelt como em qualquer meio urbanita pois o próprio processo de globalização traz consigo uma força que não subjuga mas potencializa uma recriação da cultura com uma readaptação ao novo sistema organizativo urbano com as suas bases na afirmação do individualismo e de valores como o capitalismo e o consumismo aos quais é impossível ficar-se indiferente.
Verifica-se através destas manifestações não uma abolição da cultura inicial mas uma transformação, uma recriação e uma continuidade processada por um princípio de reciclagem da velha cultura na sua adaptação a novas formas de vida.
Tribalismo
O objectivo da dança é entre outros expressar a união da tribo bisa contra as outras tribos o que é visível não só pela constituição de carácter tribal do grupo como pelas próprias letras das canções.
O autor faz a distinção entre estrutura social e tribalismo sendo que o primeiro conceito prende-se com um o esqueleto organizacional de cada elemento no seu clã e o segundo um conceito relacional não fixado em nenhum actor ou grupo social em particular. O tribalismo afirma-se no meio urbano de diversas formas encontrando na Kalela um modo muito particular.
Na dança da Kalela, todos os membros ignoram as diferenças internas com o intuito de se mostrarem unidos como um grupo e como uma tribo através de exaltações ás suas qualidades enquanto tribo e á sua união e coesão intra-tribal.
Esta situação aparecia já na obra de Evans Pritchard “Os Nuer” onde consoante a situação era criado um fenómeno de agregação entre grupos que podiam à partida ser rivais para mostrar a sua força contra outros grupos. A pouco e pouco, a vinda de pessoas de várias zonas circundantes para o centro originou um conjunto social inter-tribal. Vindas muitas vezes sozinhas as pessoas numa tentativa de se identificarem e integrarem neste novo mundo procuram unir-se a pessoas que pelas mais diversas características quer de imagem quer de ideologias e princípios com as quais se possam identificar minimamente. O expoente máximo dessa identificação é feito quando as migrantes encontram no centro pessoas da sua tribo ou de tribos vizinhas ou com quem originalmente a sua tribo mantinha boas relações.
A Kalela enquanto jogo apaziguador
O autor faz a localização espacio-temporal destes eventos e a descrição breve das pessoas que assistem. As danças acontecem normalmente ao fim de semana e é raro ver uma pessoa branca assistir ás danças. São por norma pessoas negras de várias tribos que assistem e aproveitam o momento para conviver e confraternizar. As pessoas vão assistir especialmente porque gostam de ouvir os tambores e de ouvir as canções que no caso dão Grupo de bisa são cantadas em Bemba, uma das línguas mais faladas de Copperbelt.
Os cantores e dançarinos da Kalela fazem-se valer da “piada” ou da brincadeira jocosa acerca de pessoas de outras tribos para apaziguar um pouco os conflitos inter-tribais de quem tem de partilhar o mesmo espaço e que tem de se sujeitar muitas vezes a situações estranhas à sua forma de vida natural devido a todo este mosaico cultural. É sabido que as pessoas a quem são dirigidas essas piadas as aceitam de bom grado e ripostam. Muitas vezes esses jogos de palavras remetem-se para os nomes originais das suas tribos; se a tribo do crocodilo diz ao peixe: “eu sou um crocodilo e como peixe” o da tribo peixe ripostará com algo do género: “eu sou tão importante que sem mim não podes viver”. Este tipo de brincadeiras vocabulares não é de forma alguma inédito estando presente a todo o momento mesmo num território muito mais unificado como Portugal onde as pessoas do sul inventam jogos semelhantes para gozar com os do norte fazendo os do norte o mesmo para gozar com os do sul. Esta ideia de pseudo ofensa frásica encontra-se igualmente entre os membros adeptos de equipas e futebol rivais bem como em muitas outras situações. Esta é uma simples forma de convivência que permite expressar por palavras aquilo que sem elas poderia ser catastroficamente expresso em actos violentos.
Os temas das canções são muito centralizados em algumas temáticas principais, uma deles é o urbanismo. Referem-se igualmente a alguns grupos étnicos da população urbana e ás diferenças entre eles dando a perceber a consciência dos indivíduos acerca da grande variedade étnica existente neste meio. Outro tema também tratado nas canções é o adultério. Muitas das canções são dedicadas ás mulheres tendo em conta que os jovens são solteiros.
A etnicidade e o conflito social
A etnicidade é neste trabalho a expressão de uma hierarquia vertical onde uma classe ou estirpe dominadora económica e politicamente tenta manter-se e prosperar impedindo a evolução da casta dita subordinada através de uma separação feita com base em elementos aparentemente evidentes como a língua, a forma de vestir, religião entre outros que são na sua essência marcas de uma etnicidade que quem domina pretende evitar ao seu lado na partilha do poder. Este factor é visto na dança da Kalela através da crítica explícita que é feita na forma como se apresentam os dançarinos ou seja, a sua forma de vestir totalmente ocidentalizada está longe de ser inocente. A personagem do médico é ainda mais reveladora no sentido em que este representa um cargo alto que só muito dificilmente é permitido a algum negro africano alcançar, pelo menos nas colónias inglesas. Esta é assim uma óbvia manifestação de discórdia e desagrado expressa de uma forma animada e acessível acerca do sistema de prestígio que vigora numa terra da qual quem domina tem apenas o poder económico mas nenhum poder no sentido ético da pertença.
A Kalela dance é essencialmente, a par do seu carácter tribalista, uma espécie de resistência simbólica contra determinadas práticas coloniais que discriminavam o indivíduo africano tribal considerando-o muitas vezes um indivíduo emprestado da “selva” para o trabalho e desenvolvimento da metrópole. Estes acontecimentos davam-se não só no colonialismo inglês como também no português do qual Oliveira Martins, um dos primeiros teorizadores portugueses do “darwinismo social” que nos deixa escrita uma ideia corrente na época no seu livro “ o Brasil e as colónias portuguesas”: “sempre o preto produziu em todos esta impressão: é uma criança adulta. A precocidade, a mobilidade, a agudeza própria das crianças não lhe falta; mas essas qualidades infantis não se transformam em faculdades intelectuais superiores, resta educa-los, dizer, desenvolver e germinar a semente.” Só podemos obviamente enquadrar teorias e expressões como esta num exímio eufemismo da real relação Africo-Europeia que teve e tem continuado a ter repercussões históricas e sociais.

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